"E se nos queixamos de que não temos voz porque não começamos por dar voz às paredes dos nossos bairros?"Anónimo
João Marcelino provoca-me náuseas. Mas ao mesmo tempo satisfaz-me porque aclara que as nossas análises estão correctas. Ou seja, o director do Diário de Notícias destapa e mostra que o seu jornal não faz mais do que impor o pensamento neoliberal à maioria dos portugueses. E porque lhe chamo imposição? Precisamente porque a comunicação social continua nas mãos de uma minoria que, por sinal, é a mesma que controla a economia do nosso país. Hoje, num
artigo de opinião, João Marcelino traça o retrato de José Sócrates como um político excepcional e sai em defesa do primeiro-ministro lançando um feroz ataque ao partido "Os Verdes" acusando-o - como o seu ideólogo - de ser um fantoche criado pelo Partido Comunista Português. Para tal, recupera as declarações de Zita Seabra - essa campeã da verdade que disse que Che Guevara combateu na Colômbia, que Amílcar Cabral era guineense e que Honecker morreu como secretário-geral do partido que governava a RDA.
Este não é um caso excepcional. Ainda há poucos dias, o Público - como denunciámos no artigo anterior - dizia que a Venezuela se preparava para perpetuar Hugo Chávez no poder. E a RTP, sem qualquer pudor e uma semana antes da greve decretada pelos professores, decidiu abrir dois telejornais com reportagens chocantes que envolviam a classe docente. Na primeira, uma professora obrigara uma criança a despir as pernas perante a turma e na outra o marido de uma professora atacara um aluno com uma navalha. Não há quaisquer dúvidas sobre a culpabilidade de quem cometeu tais actos. Mas sobram muitas sobre o valor-notícia que leva a emissora do Estado a mediatizar sucessivamente acontecimentos que denigrem a classe docente.
Na Venezuela, tive a oportunidade de contactar com vários jornalistas. Depois da vitória de Hugo Chávez em 1998 e, principalmente, depois da avalanche popular que derrotou o golpe de Estado em 2002, os meios de comunicação alternativos cresceram consideravelmente. Apesar do poder económico da burguesia se manter quase intacto, a população e o Estado promoveram a criação de jornais, revistas, rádios e televisões para combater a desinformação e para se baterem de igual para igual na batalha ideológica. E a verdade é que em cada um dos lados das barricadas informativas há visões do mundo absolutamente diferentes. O povo venezuelano tem agora em suas mãos mais uma ferramenta para ver de forma consciente e crítica a realidade que o rodeia. Em Portugal não. Vivemos à sombra do que nos injecta a burguesia portuguesa. E daí vem a necessidade de combatermos com os poucos meios que temos à nossa disposição a ditadura informativa que se vive no nosso país.
Nunca é demais repetir-se a importância que têm os meios de comunicação para os movimentos revolucionários. Os portugueses devem sentir-se orgulhosos de terem entre si o jornal comunista que mais tempo sobreviveu na clandestinidade. Mas, sem qualquer tipo de saudosismo, devemos contar com ele para informar e difundir as ideias que defendemos. O «Avante!» não foi, não é, nem será uma peça de museu. Serviu e servirá de meio para informar e agitar. Principalmente porque como marxistas-leninistas consideramos a verdade como um eixo essencial do nosso pensamento e acção. Que melhor forma de combater as omissões e as mentiras dos porta-vozes da minoria capitalista que com os meios dos que defendem a maioria trabalhadora?