Mais de uma dúzia de jovens juntaram-se para nos receber. O extraordinário, parece, é o facto de termos afirmado ser comunistas e, em determinado momento, termos participado em campanhas de solidariedade com Abdullah Ocalan. Fizemo-lo num ambiente de confidência a três amigos antes da nossa viagem à Síria. E com isso fizeram-nos prometer voltar. Não podiamos partir para a Europa sem desfrutar de um jantar e de um baile curdo.
O prometido é devido. E naquela tarde abafada de Agosto, largámos as mochilas no Yunus Hotel e esperamo-los na rua. Os nossos três amigos chegaram com o batalhão de gente desconhecida. Com uma alegria contagiante levaram-nos pelas ruas de Gaziantep. Metade deles não sabia uma palavra de inglês. E nós pouco sabíamos de curdo ou de turco.
Primeiro, levaram-nos à casa de chá arménia. Provavelmente, a visita não teve qualquer significado político mas a verdade é que havíamos conhecido na Síria vários arménios que apontavam o dedo acusador à Turquia pelo genocídio contra o seu povo. Aquela visita terá sido casual ou terá sido propositada? Nunca saberemos.
Mas depois de nos conduzirem pelo mercado levaram-nos a casa. À porta, recebe-nos a mãe. Não sabe quem somos mas ainda assim abraça-nos. Somos amigos das suas filhas e isso basta-lhe. Convida-nos a descalçar e puxa-nos para uma sala acolhedora. Senta-se num cadeirão e observa-nos sorridente. Não participa na conversa porque não sabe falar outra língua que não o curdo e o turco. São as filhas quem lhe vai explicando o tema.
Saltam-lhe lágrimas quando lhe dizem que falamos sobre o problema curdo. Só nesta família, houve quem tivesse que fugir para a Alemanha e houve quem tivesse optado por pegar em armas, ao lado do PKK. Algures, lutavam nas montanhas pela dignidade do seu povo. Mas não deixavam de ser sangue do seu sangue e isso fazia-a sofrer. Na guerrilha, o combate é de vida ou de morte.
Entretanto, os jovens estendem uma toalha no chão da sala. Há pão, salada, sopa de grão e pimentos recheados com carne e arroz. Nós, cumprindo as costumeiras regras, trouxemos a típica baklava para a sobremesa. Querem saber o que se come nos nossos países. Falo-lhes do famoso peixe que vive no Norte do Atlântico e que é o protagonista da gastronomia portuguesa. Sentamo-nos de pernas cruzadas e num ambiente jovial, enquanto se come, conversa-se, discute-se e brinca-se.
Não sei quando começaram mas num determinado momento todos dançavam. Também nós. Fui arrastado por uma rapariga que me obrigou a acompanhar os passos de forma disciplinada. Demos as mãos, fizemos um circulo e deixamo-nos levar pela guitarra curda de um dos jovens. Eles cantavam em coro enquanto eu lutava para manter os passos no ritmo acertado.
Mas a noite quase que acabava de forma trágica. Levados pelo entusiasmo, dedicamo-nos a entoar canções revolucionárias. Houve tempo para o Hino de Caxias e para a Bella Ciao. A mãe, sempre alerta, mandou-nos baixar o tom quando cantámos a Internacional. Alguém nos podia denunciar. Mas era um momento solene. Todos eles, em curdo ou em turco, e nós, em português e em italiano, cerrámos os punhos.
Não sei como estarão. Não sei se estarão a preparar o próximo Newroz. Não sei se algum terá sido morto, preso ou partido para o exílio. Não sei se a mãe teve de derramar mais lágrimas. Tudo indica que sim. A Turquia lançou uma ofensiva sobre os guerrilheiros curdos. O próprio PKK - que depois da autonomia curda no Norte do Iraque havia tolerado, de forma vergonhosa, a intervenção norte-americana - encontra-se encurralado. Mas sempre que penso naquela noite recordo-me da voz de Manuel Freire: "Não há machado que corte a raiz ao pensamento".