segunda-feira, 11 de maio de 2009

Simón Trinidad, o homem de ferro

O livro fez sucesso na Venezuela. Milhares de pessoas compraram a obra de Jorge Enrique Botero. O jornalista colombiano havia escrito uma "mistura de biografia e reportagem" sobre Ricardo Palmera, conhecido como Simón Trinidad. Palmera fora um destacado gerente bancário e candidato da União Patriótica. Quando se dá o genocídio daquele partido de esquerda, alvo do ódio da oligarquia e do Estado colombiano, Palmera decide pegar em armas e adere às FARC. Passa a ser Simón Trinidad. A vida excepcional de um homem que preferiu perder tudo o que tinha a ser um vassalo do sistema. Preso e extraditado para os Estados Unidos, Simón Trinidad foi condenado a 60 anos numa cadeia de alta segurança. Longe do seu país e da sua Lucero, o comandante das FARC acredita que o socialismo é a única opção para fazer frente à barbárie capitalista.

Da direita para a esquerda, Simón Trinidad (Ricardo Palmera) e Mono Jojoy (Jorge Briceño)

«Eu também tinha razões pessoais e inevitáveis para lançar-me nestas páginas pois havia conhecido Trinidad durante os diálogos entre o governo de Andrés Pastrana e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Vi-o a dar cursos tumultuosos a 200 candidatos a comandantes guerrilheiros nas selvas de Caguán. Esvaziei com ele várias garrafas de Old Parr discutindo o passado, o presente e o destino da Colômbia e conheci-o no seu invejável mundo afectivo amando sem tréguas a sua Lucero, a jovem que conquistou sendo já um quarentão. Também o vi no papel de pai afectuoso com a sua pequena filha Alix Farella, então com sete anos, ao mesmo tempo que me confessava a sua admiração por José Stáline.
Foi conversando com Trinidad que obtive uma das pistas chave para decifrar essa guerrilha enigmática a que chegou empurrado por factores externos mas também por decisões da sua alma rebelde. "As FARC - disse-me numa tarde, no meio de uma chuva apocalíptica no acampamento de Las Cachamas - têm dois nuncas: nunca esquecerão o genocídio contra a União Patriótica e nunca deixarão as armas".
Durante as minhas viagens frequentes como repórter à zona desmilitarizada de 42 mil quilómetros onde dialogavam os porta-vozes do governo e da guerrilha sempre procurei formas de passar algum tempo com o protagonista destas páginas. Falávamos durante horas percorrendo as estradas construídas pela guerrilha na profundidade da selva com ele ao volante da camioneta que lhe havia atribuído Mono Jojoy [comandante das FARC].
Passei dias e noites nos seus acampamentos onde comíamos cancharina e bebíamos café nas aprazíveis e incríveis aldeias móveis que a guerrilha vai construindo durante as suas deslocações por montanhas e selvas. Levou-me às emissoras de rádio, aos hospitais de guerra e às escolas onde se formavam militar e politicamente centenas de adolescentes. E, como não, discutimos amigavelmente sobre política (a sua paixão obsessiva) mas também sobre futebol, mulheres, música, guerra, literatura, cinema e...mais política.
No dia 12 de Fevereiro de 2002, o presidente Andrés Pastrana rompeu oficialmente os diálogos com as FARC e deu a ordem de bombardear nessa mesma noite várias localidades de Caguán.
Segundo as FARC, a ordem de Pastrana foi uma cobarde violação dos acordos assinados no inicio dos diálogos pois o governo comprometeu-se a dar um intervalo de dois dias antes de atacar no caso de que o processo se rompesse.
O próprio Pastrana confirma-o no seu livro La palabra bajo fuego, memórias do fracassado processo de paz com as FARC quando relata que depois de chegar a um acordo com a guerrilha sobre os limites geográficos da zona desmilitarizada e o funcionamento dos diálogos. "Disse a Marulanda que, se terminasse a zona, as FARC teriam 48 horas para sair dela antes do reingresso da Força Pública".
- Não ficou escrito mas foi um pacto de honra que fizemos com Pastrana e o presidente faltou à sua palavra - assegurou Mono Jojoy durante uma entrevista que lhe fiz há quase dois anos depois do fim do processo de paz.
O capítulo final daqueles três anos de aproximações e desconfianças apanhou-me numa aldeia chamada La Tunia que fica no caminho entre San Vicente e La Macarena onde esperava uma resposta a um pedido para entrevistar Marulanda.
Na véspera do rompimento, um comando guerrilheiro da coluna Teófilo Forero havia sequestrado em pleno vôo um avião da Aires que fazia a rota Neiva-Bogotá, obrigando os pilotos da aeronave a aterrar numa estrada próxima para levar como "preso de guerra" o senador Jorge Eduardo Gechen, numa operação tão cinematográfica como bem sucedida que teve grande destaque na imprensa nacional e internacional. Num relato do seu sequestro que consegui gravar com ele em meados de 2003, quando realizava o documentário Bacano salir en deciembre, Gechen disse-me que aquela havia sido uma operação muito bem planeada. Guerrilheiros da Teófilo Forero tinham cortado nessa mesma manhã as árvores que se levantavam nas bermas da estrada que une Hobo e Campoalegre enquanto um comando de combatentes vestidos de civil conseguiam entrar armados no avião para desvia-lo rumo à pista improvisada.
Recordo que vi as imagens daquele episódio na única televisão de La Tunia, cercado por dezenas de camponeses da zona. Ao terminar o noticiário, um deles levantou a voz e gritou a plenos pulmões que o melhor que podiam fazer todos os camponeses era empacotar rapidamente as suas coisas e fugir para o mais longe possível da zona desmilitarizada. A sua intuição, apurada pelos anos e pelos golpes, advertia-o de que o processo de paz estava a agonizar e que o exército não tardaria em chegar à região.
- E quando não encontrarem guerrilheiros somos nós que pagamos - avisou. Pagou a cerveja que havia tomado e partiu.
O prognóstico do camponês não falhou. A partir das primeiras horas do dia seguinte, caravanas de camionetas e camiões atestados de guerrilheiras e guerrilheiros das FARC desfilaram sem descanso pela estrada rumo à profundidade da selva deixando a pequena aldeia envolto numa nuvem de poeira que lhe dava a aparência desolada daqueles povoados do distante oeste norte-americano, abandonados pelos homens e habitados apenas pelo vento.
A gente do povo também iniciou a sua fuga no meio de uma grande desordem. Homens, mulheres, crianças e idosos disputavam aos encontrões um lugar nas camionetas da linha. Dito lugar podia ser um banco mas também no corredor, no tecto ou nas escadas; de tal forma que muitos passageiros acabavam literalmente colados ao autocarro.
Nisso andava La Tunia quando passou o comandante Simón Trinidad.
Conduzia uma camioneta azul onde se apertavam pelo menos 20 guerrilheiros. Ao seu lado estava Lucero. Trinidad viu-me e parou a marcha. Perguntou-me que diabo fazia eu ali e recomendou-me que tratasse de sair imediatamente da área.
- A corda não aguentou mais - concluiu.
E acrescentou que Pastrana anunciaria pela televisão o fim dos diálogos. "Pela noite, vêm os bombardeamentos".
- Eu estou à espera de uma entrevista com Marulanda mas acho que perdi a viagem - disse-lhe, explicando a minha presença na aldeia.
A Trinidad fez-lhe rir o meu comentário mas não me respondeu. Tinha pressa e demos um forte aperto de mãos enquanto Lucero se despedia com a sua frase de sempre: "Por favor, cuide-se muito, jornalista".»

domingo, 10 de maio de 2009

"Não se ataca a polícia"

Sobre os últimos acontecimentos no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, o primeiro-ministro José Sócrates vem dizer que "nos Estados democráticos não se ataca a polícia". Obviamente que não. Nos Estados democráticos só a polícia é que pode atacar. Recordemos as cargas policiais sobre os operários da Sorefame, da MB Pereira da Costa e da Valorsul, para dar alguns exemplos. É esta a noção de democracia de José Sócrates. Podemos apanhar mas não nos podemos defender.

Em relação à Bela Vista, a repressão policial nada resolverá. Aquela população, revoltada por um acontecimento concreto mas que evidencia um mal-estar normal nas condições em que aquela gente vive, quer viver em paz. E só a resolução pacífica do conflito através da requalificação dos bairros e da integração social permitirá acabar com o problema.

Noto algumas análises apressadas que tentam comparar aquela situação à de Paris e à da Grécia. Se em relação a Paris se podem tecer algumas comparações, isso não é possível no caso grego. A contestação violenta na Grécia teve uma forte componente política e organizada. A violência em Paris teve o seu foco nos bairros pobres de imigrantes e não era algo organizado ou politizado.

Lutemos contra os fascistas e o fascismo!


Carlos Palomino foi assassinado há dois anos e meio em Madrid. O jovem de 16 anos dirigia-se com amigos para a contra-manifestação que ia contestar uma concentração fascista. No metro, foi esfaqueado por um militar de ideias nazis. Dois anos e meio depois, o jornal El País publicou os vídeos captados pelas câmaras de vídeovigilância do metropolitano de Madrid. Imagens chocantes. Neste mundo, não devia haver lugar para gente deste tipo. Mas há. E o nazi-fascismo é estimulado e propagado não só pelos que o defendem mas também pelos que nada fazem contra ele. Em Portugal, prosseguem as manifestações de exaltação desta ideologia execrável que contraria a Constituição da República Portuguesa. O lugar dos fascistas é na prisão e a luta dos trabalhadores será a tumba do fascismo.

À memória de Carlos Palomino.

sábado, 9 de maio de 2009

Dia da Vitória


No Dia da Vitória, a Rádio Moscovo presta a sua homenagem a todo o Exército Vermelho e à União Soviética. Grandes foram os sacrifícios que aquele povo escreveu naquelas páginas inesquecíveis da história da humanidade. Frente à barbárie nazi-fascista, milhões de vidas foram estupidamente perdidas numa guerra que avançou por culpa da burguesia europeia. Só a participação do Exército Vermelho sob a direcção de Stáline conseguiu suster o avanço das hordas nazis e lançar-se numa ofensiva que só parou com a bandeira vermelha içada em Berlim.

Depois do fim da URSS, a propaganda apagou o papel da pátria de Lénine na libertação da Europa. Poucos sabem, entre as gerações de hoje, que foi o povo soviético o mais sacrificado. Poucos sabem que logo após o fim da II Guerra Mundial o prestigio da URSS e de Stáline era gigantesco. Muitos povos do mundo abraçaram a causa pela qual lutamos. Prestigio que desde cedo os Estados Unidos e as potências capitalistas europeias tentaram destruir. Mas não só não o conseguiram como foram obrigados a ceder uma série de direitos à classe trabalhadora dos seus países. A vitória sobre o nazi-fascismo não foi apenas uma vitória militar. Foi também uma vitória política, social e económica.

Viva o Exército Vermelho!
Viva a União Soviética!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Apontamentos sobre a Venezuela


Uma das coisas que mais me surpreenderam na Venezuela foi a explosão de meios de comunicação. Como na Europa e nos Estados Unidos, um dos cursos da moda é o de jornalismo. Mas ali a perspectiva é a de fechar as cortinas à mentira e à manipulação abrindo caminho à democratização da comunicação social. A maioria dos jovens estudantes com que falei tinham um sentido crítico e um background cultural muito apurado. Muito diferente daquilo a que assistimos nas faculdades portuguesas. Quando na Europa e nos Estados Unidos se fecham jornais e rádios, os bisnetos de Simón Bolívar dedicam-se a abri-los. Com uma diferença. A comunicação social deixou de estar apenas nas mãos da oligarquia.

Cada bairro tem a sua emissora televisiva e radiofónica. Lembro-me bem da CátiaTV, numa das favelas mais pobres de Caracas. Também da rádio Al son del 23. Em nenhum destes meios vi a falta de profissionalismo a que estamos condenados aqui. Há também centenas de jornais e revistas com uma orientação editorial de esquerda. Naturalmente, tudo isto convive com o que de pior produz a burguesia venezuelana. E como em todos os processos revolucionários e progressistas sente-se uma radicalização da opinião e das perspectivas com que se encaram os acontecimentos noticiados.

Entre os programas a que assistia contava-se uma telenovela que não era mais do que a vida de um casal que ia recordando os momentos mais importantes do processo bolivariano. A maior parte da sua duração era ocupada por flashbacks com imagens reais de tempos tão conturbados como o golpe de Estado ou a paragem petrolífera. Bem longe das ridículas telenovelas portuguesas que não fazem mais do que reproduzir a cultura dominante.

Havia um canal de televisão, a ÁvilaTV, produzido por e para jovens. Mas não tinha nada a ver com a SIC 'Radical'. Era, efectivamente, radical. Tão radical que quando a actual governação de direita ganhou em Caracas ameaçou transforma-la. Centenas de jovens concentraram-se em frente à sede do canal. No dia seguinte, Hugo Chávez passava a propriedade da emissora para as mãos do poder central. Ali promove-se a cultura juvenil alternativa. Promove-se a participação, o debate e a acção.

O vídeo que aqui deixo mostra o ambiente descontraído que se vive no programa de análise política La Hojilla. Um grupo de jovens de distintos agrupamentos musicais canta pela revolução no Dia da Juventude. Bem mais agradável que ouvir Marcelo Rebelo de Sousa e bem mais acutilante e consequente que ouvir o social-democrata Daniel Oliveira.

Ouve mais canções no programa La Hojilla:
Teleficción (Dame Pa Matala)
Fuera yankee imperialista (Pinky)
Hombre (Solemar Cadenas)
La luna en mi pensamiento (Amaranta Pérez)
De la gran Humanidad (Solemar Cadenas)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Burguesia lança novo diário

O "i", nome registado para o título, dirige-se à classe alta, "um público que olha para a informação com rigor e exigência". Martim pensa que "há um enorme mercado não preenchido. Temos a certeza que não vamos fazer sumir leitores dos outros jornais".

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Vamos con todo!


Durante meses, ouvi-a vezes sem conta.