Partigiani, guerrilheiros italianos em Turim
O primeiro-ministro Silvio Berlusconi esteve envolvido num caso escaldante com uma menor napolitana? Este é o grande escândalo que agita Itália. Provavelmente, nunca o saberemos, apesar das fotografias com dezenas de jovens em topless na sua casa na Sardenha. Mas temos factos de que algo muito mais grave e com piores consequências para os trabalhadores italianos se está a passar. Para além das perseguições, agressões e homicidios contra imigrantes, das recentes patrulhas que vigiam as ruas com a farda fascista, da saudação romana, comummente conhecida como saudação nazi, feita pela ministra italiana do Turismo numa cerimónia oficial, não há esquerda parlamentar. Nem sequer social-democracia.
Diz-se que ali houve um dia o Partido Comunista mais forte da Europa Ocidental. Um partido que teve na sua organização mais de dois milhões de membros e que atingiu várias vezes os 30 por cento em outras tantas eleições. Que assumiu um papel fundamental na luta armada dos partigiani contra o nazi-fascismo e que deu um contributo importante para a cultura neo-realista através de grandes intelectuais. No fundo, a história italiana dos nossos dias é a história da derrota daquele partido.
De forma sucinta e demasiado breve, o Partido Comunista Italiano (PCI) começou por fazer demasiadas concessões à democracia burguesa. Depois, abraçou a corrente social-democrata do eurocomunismo. Em 1991, depois do fim da União Soviética, abre o congresso do PCI. Quando terminam os trabalhos, é já um cadáver. Por maioria clara de 807 votos a favor, dava-se o último suspiro do gigante moribundo. Agora, passa a chamar-se Partido Democrático da Esquerda.
Entretanto, um grupo de membros não adere à nova formação política e lança o Movimento da Refundação Comunista. A seguir, funda o Partido da Redundação Comunista (PRC). Contudo, nunca deixaria de estar em crise e o máximo que consegue a nível eleitoral é 8,5 por cento dos votos nas eleições legislativas de 1996. Seguem-se as concessões e os pactos governamentais com o primeiro governo de Romano Prodi. De seguida, em 1998, dá-se uma cisão e surge o Partido dos Comunistas Italianos (PdCI).
Nenhum desses partidos rompeu com a linha do PCI. De uma ou de outra forma, prosseguiram as teses fundamentais do eurocomunismo, alimentaram as concessões à democracia burguesa e os pactos para participar em governos que em muitos casos atacavam direitos fundamentais dos trabalhadores e se lançavam nas guerras criadas pelo imperialismo. Não deixaram de acreditar que a União Europeia é uma estrutura reformável e humanizável. Provavelmente, como o capitalismo. Como consequência, a Refundação Comunista criou com outros partidos europeus o Partido da Esquerda Europeia. Uma estrutura onde participa não só o PCE e o PCF mas também organizações como o Bloco de Esquerda e o Synapismos grego.
Nas últimas eleições legislativas, depois de terem participado no governo de Romano Prodi, nenhum dos dois partidos conseguiu eleger qualquer deputado. Agrupados na coligação Esquerda Arco-Íris, onde até se discutiu a retirada da foice e do martelo da campanha, sofreram uma pesada derrota nas eleições em que Silvio Berlusconi foi eleito primeiro-ministro. Nestas eleições europeias, a coligação teve o nome de Lista Anticapitalista mas dos sete eurodeputados eleitos em 2004 não elegeu nenhum. Neste momento, para além de eleitos pontuais em certas autarquias, não existe esquerda em qualquer órgão de âmbito nacional.
Como se chegou a este ponto? No fundamental, parece-me, para além dos graves desvios em questões fundamentais que já aqui se descreveu de forma breve, a rejeição do leninismo foi, é e será sempre motivo para que a esquerda não compreenda como se deve e por que se deve organizar e lutar. Recordava algumas teses em que Jean Salem reuniu as ideias de Lénine acerca da revolução. Dizia que "os revolucionários não devem renunciar à luta pelas reformas" mas que "os grandes problemas dos povos nunca serão resolvidos senão pela força".
Certamente, há comunistas em Itália. Alguns estão organizados no PRC e no PdCI, muitos outros não estão organizados em qualquer partido. Uns acreditam ser possível reformar os existentes, os outros crêem necessário criar uma organização de raiz. Qualquer uma das soluções é difícil. Mas a classe trabalhadora italiana já deu no passado exemplos da sua coragem. Provavelmente, os tempos que aí vêm serão complicados. E nestas coisas há sempre mais dúvidas do que certezas. Mas há algo sempre certo: já falta menos um dia.