Ontem à noite, o golpista Roberto Micheletti anunciou a retirada das Honduras da Organização dos Estados Americanos [OEA]. Esta foi a resposta ao ultimato apresentado pelo secretário-geral dessa estrutura que viajou àquele país da América Central. Nas ruas, concentram-se milhares de pessoas. Desta vez, com a mobilização da direita hondurenha para mostrar algum apoio interno à actual situação política. Contudo, por todo o país, há uma grande expectativa sobre a chegada do legítimo presidente Manuel Zelaya, o que pode acontecer entre hoje e amanhã.
Nos últimos dias, algumas forças políticas latino-americanas de esquerda alertavam para a "armadilha da OEA". Mostravam-se preocupadas pelo adiamento da chegada de Manuel Zelaya a Tegucigalpa e para o reforço do apoio dos golpistas. Na verdade, o tempo joga a favor dos que usurparam o poder através do golpe de Estado. E ter-se adiado a viagem do presidente constitucional por causa da ofensiva diplomática da OEA, pode ter sido um erro.
O Bloco de Esquerda queria ficar na fotografia e não sabia como. Primeiro, escreveram um comunicado a exigir um pedido de desculpa a Manuel Pinho pelo gesto que dirigiu à sua bancada. Depois, escreveram a notícia sobre o acontecimento apagando Bernardino Soares e o PCP da fotografia. E não daria qualquer importância ao caso, não fosse o Bloco de Esquerda estar sempre a acusar outros de apagar gente das fotografias. É que atirar pedras ao ar quando se tem telhados de vidro...
Manuel Pinho teve de se demitir do governo mas a Rádio Moscovo sabe que já arranjou trabalho. E não é numa empresa favorecida pelo executivo de José Sócrates mas numa corrida de touros em Barrancos.
A ofensiva golpista prossegue. Agora, os deputados que apoiam o governo fascista de Micheletti aprovaram o Estado de Sítio. Naturalmente, não o denominam assim. Sob a mesma fachada democrática com que tentaram mascarar o golpe de Estado tentam agora justificar a restrição de direitos e liberdades. Para além do ataque ao direito de reunião, associação, manifestação e circulação, a polícia pode agora violar o domicílio sem qualquer aprovação judicial. É suspensão das garantias constitucionais por um governo que diz não ter cometido qualquer golpe.
Nas ruas, o povo desafia os golpistas. Com grande coragem, podemos vê-los manifestar-se por todo o país através da Telesur porque a comunicação social hondurenha continua sob a censura apertada dos gorilas de Micheletti. Enfrentam a repressão e a brutalidade porque sabem que o governo de Manuel Zelaya foi o único que teve preocupações com as aspirações da classe trabalhadora. O legítimo presidente das Honduras não é comunista, nem sequer socialista, mas tomou corajosas decisões que provocaram a fúria de uma oligarquia habituada a concentrar em si todo o poder político e económico.
Entretanto, o mundo aperta o cerco. Não há um só Estado que apoie o golpe de Estado. E se isso acontece muito se deve à unidade e ao reforço da esquerda na América Latina. Noutras circunstâncias, provavelmente, os Estados Unidos e a União Europeia não condenariam o golpe como não fizeram há sete anos com a Venezuela. Contudo, isto não quer dizer que a CIA não esteja envolvida no que se passa nas Honduras. Mesmo dentro do governo norte-americano já ouvimos declarações ambíguas como as que proferiu Hillary Clinton apelando à conciliação entre golpistas e constitucionais. E entre os neo-conservadores há um claro apoio à acção da oligarquia hondurenha. Um apoio que na Europa é protagonizado por José Maria Aznar.
Em Portugal, há um silêncio ensurdecedor sobre o assunto. Sinceramente, não sei se o Bloco de Esquerda tomou alguma posição mas até agora só assistimos à condenação clara do golpe de Estado por parte do PCP. Do governo, naturalmente, nem uma palavra. O ministro português dos Negócios Estrangeiros mais ocupado em bajular os Estados Unidos e em apoiar a ofensiva contra o povo afegão não se referiu uma única vez às Honduras e José Sócrates nem aproveitou o seu novo perfil de comiseração para condenar o golpe e solidarizar-se com a democracia.
"[...] Creio que foi por essa altura que resolveram dar uma existência organizada à luta contra a injustiça. Quando imprimiram o meu nome nos jornais produzidos na velha tipografia escondida dos olhos da polícia, a realidade endureceu. Vieram as greves e as manifestações. Vieram as prisões e as torturas. As mães dos operários encheram os cemitérios ao Domingo. Como um grito vermelho na noite escura, os cravos resistiam nos seus fatos enlutados. Muitos tombaram por não revelarem o meu nome. “Filho da puta comunista!”, saía dos peitos encharcados de ódio dos carcereiros. Depois a tortura do sono até à exaustão. O cavalo-marinho. As beatas apagadas nos mamilos. Os eléctrodos nos genitais. A asfixia por afogamento na banheira. [...]"
O PCP condena firmemente o golpe de estado consumado nas Honduras no domingo, 28 de Junho, visando impedir a livre expressão política do povo hondurenho e liquidar o processo democrático em curso no país. Expressa a sua solidariedade com a resistência e a crescente mobilização dos trabalhadores, das massas populares e das forças democráticas e progressistas hondurenhas pelo imediato restabelecimento da legalidade democrática naquele país da América Central.
Do mesmo modo, o PCP expressa o mais profundo repúdio e inquietação perante as medidas de repressão empregues contra o movimento popular que se manifesta nas ruas e a instauração pelo poder golpista de um regime de bloqueio informativo e cerceamento das liberdades, que trazem à memória um negro passado recente de golpes militares fascistas nas Honduras e na América Central e Latina em geral.
O PCP, valorizando a generalizada condenação internacional do golpe e as vastas acções de solidariedade com o povo hondurenho, muito especialmente por parte das forças revolucionárias e progressistas latino-americanas, alerta para eventuais manobras que, a coberto da condenação formal do golpe de Estado que afastou o presidente das Honduras, Manuel Zelaya, pretendam na realidade legitimar os objectivos deste acto anti-constitucional perpetrado pela oligarquia e as forças mais retrógradas hondurenhas, dando continuidade às tentativas do imperialismo para travar e fazer reverter os processos de emancipação e cooperação entre os povos que hoje se afirmam na América Latina e Caraíbas.
Através do trabalho excepcional dos jornalistas da Telesur, pudemos conhecer a situação em Tegucigalpa, capital das Honduras. Ontem, milhares de manifestantes concentravam-se em frente à Casa Presidencial. De todo o país, chegavam hondurenhos decididos a reclamar o regresso de Manuel Zelaya, legítimo presidente, e a protestar contra o golpe de Estado dirigido pela oligarquia, conduzido pelos militares e protagonizado por Micheletti, entretanto ilegalmente empossado como presidente pela Assembleia Nacional.
Levantavam-se barricadas e juntava-se um mar de gente. Entretanto, chegavam reforços militares e a partir da tarde a situação ficou mais tensa. Sucederam-se as cargas, o lançamento de granadas de gás e os disparos. O exército tentava desbloquear as vias de acesso à Casa Presidencial mas sem sucesso. Nos avanços militares, houve vários feridos e um morto, atropelado por um camião das Forças Armadas. Jornalistas foram atingidos por balas de borracha. Camiões lançavam água sobre os manifestantes e tinta vermelha para que ficassem marcados e pudessem, posteriormente, ser identificados.
A equipa de reportagem da Telesur que transmitia em directo para todo o mundo, menos para as Honduras onde tem o sinal bloqueado, foi detida e levada por um grupo de militares. A coragem de uma jornalista em ligar para a redacção central em Caracas enquanto lhe tentavam tirar o telemóvel foi fundamental para enervar as chefias políticas e militares. Pouco tempo depois, foram libertados e seguiu um pedido de desculpa para a Embaixada da Venezuela. Aquela detenção havia sido um "erro".
Durante estes acontecimentos, reuniam vários chefes de Estado em Manágua, Nicarágua. As intervenções e as conclusões eram claras. Nenhum apoio e reconhecimento para os golpistas e toda a ajuda para Manuel Zelaya e o povo que resiste nas Honduras. Foram transcendentes as palavras de Hugo Chávez que se afirma cada vez mais com destaque na América Latina. Para o presidente da República Bolivariana da Venezuela, está bem claro que se as burguesias daquele continente optarem por afogar pela força processos democráticos que as põem em causa então os povos não terão qualquer dúvida em tomar as armas para os enfrentar. E citando uma frase que atribuiu a Kennedy afirmou que "os que fecham o caminho à revolução pacífica abrem o caminho à revolução violenta".
Hoje, o presidente hondurenho Manuel Zelaya segue para Washington onde tomará a palavra a partir da sede das Nações Unidas. E repetiu ontem que não deixará o seu povo a lutar sozinho nas Honduras. Na quinta-feira, segue com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, e com qualquer chefe de Estado que se lhe queira juntar, para as Honduras.
Por cá, nada de novo. Depois da febre mediática sobre o Irão, ninguém parece muito interessado num golpe de Estado conduzido pela oligarquia e combatido pelo povo. Os meios de comunicação não dão qualquer importância ao que se passa nas Honduras e quando o fazem seguem a linha editorial de questionar as decisões políticas efectuadas pelo legítimo presidente Manuel Zelaya. Tentam passar a ideia de que este golpe de Estado quis repôr a legalidade e a democracia. A eles, acompanham-nos todos os políticos, comentadores e bloguistas que durante semanas andaram agitados com o Irão mas que agora se escondem no silêncio enquanto se prendem jornalistas, manifestantes, embaixadores, ministros, deputados. Enquanto se censura o trabalho dos jornalistas hondurenhos, enquanto se bloqueia a distribuição eléctrica, enquanto se impõe o recolher obrigatório à força das armas.