domingo, 11 de julho de 2010

O capitalismo não tem pátria

Há alguns anos, num golpe de oportunismo publicitário, o Banco Espírito Santo patrocinava milhares de bandeiras penduradas nas janelas portuguesas. Com o patriotismo na ponta da língua, Ricardo Salgado imitava outros capitalistas interessados em mostrar o seu amor por Portugal. Enquanto arrancavam fábricas de Portugal e as implantavam em países com mão-de-obra barata largavam lágrimas de afecto pela pátria. Agora, Ricardo Salgado mostra-se chateado com o governo português por ter utilizado a 'golden share'. Como Durão Barroso, outro patriota, que se lança indignado contra este ataque ao mercado livre. Como sempre, as elites mostram que o capital não tem pátria e que são os povos os que acabam sempre por lutar pela soberania nacional.

Não se trata de apoiar a manutenção da Vivo no seio da PT. Também não se trata de apoiar a venda da Vivo à Telefónica. No fundo, num mundo diferente, a Vivo seria do povo brasileiro, a PT do povo português e a Telefónica do povo castelhano. E não haveria qualquer instituição supranacional a dizer o que cada um pode ou não fazer com as suas próprias companhias de telecomunicações.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Agora e sempre, resistência!

Do grupo italiano Senza Sicura, a canção Figli della Patria.

Dante di Nanni, sempre!

Há livros em que as personagens se libertam da ficção e se juntam a nós na realidade. Escrevi-o quando acabei de ler 'Por quem os sinos dobram' de Ernest Hemingway. Na altura, encheu-me a sensação de vazio ao fechar a última página. As obras de ficção deixam de o ser quando retratam episódios vividos na realidade por milhares de combatentes antifascistas.

Neste momento releio o 'Sem tréguas' de Giovanni Pesce. Não se trata de ficção mas de realidade. A história, e não estória, dos 'partigiani' contra a ocupação de Itália pelos nazis alemães. Uma realidade brutal que só pôde ter sido derrotada pelo heroísmo dos combatentes antifascistas italianos e da classe operária organizada.

Ainda longe da última página, rendo a minha homenagem ao jovem Dante Di Nanni que optou pela morte em vez da rendição. Depois de um ataque a uma estação de rádio foi gravemente atingido. Moribundo, no seu quarto, em Turim, matou dezenas e dezenas de fascistas italianos e nazis alemães. Destruiu um tanque, carros blindados e quando se acabaram os explosivos e as munições lançou-se da janela de punho erguido.

"Os anos e os decénios passarão: os dias duros e sublimes que nós vivemos hoje parecerão longínquos, mas gerações inteiras de jovens filhos de Itália educar-se-ão no amor pelo seu país, no amor pela liberdade, no espírito de devoção ilimitada pela causa da redenção humana com o exemplo dos admiráveis garibaldinos que escrevem hoje, com o seu sangue vermelho, as páginas mais belas da história humana."

in panfleto clandestino [editado a 4 de Junho de 1944, em glória do herói nacional Dante Di Nanni]

domingo, 27 de junho de 2010

Prestes: 'O operário sozinho não vale nada'

Intervenção do lendário Luiz Carlos Prestes, em 1987, três anos antes de falecer e três anos antes de acabar a experiência socialista no Leste da Europa. As palavras que pronuncia são as palavras que qualquer comunista poderia pronunciar, hoje, perante a situação que se vive.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O fairplay estalinista

É exasperante ver os jogos em que participa a República Democrática Popular da Coreia. Os comentadores desportivos, tão inábeis na arte da objectividade, até se aventuram a falar de política. E usam-na para forrar as habituais metáforas de péssima qualidade. Com o mínimo de decência e atenção, quem ouviu o relato na RTP e nas estações de rádio só poderia ficar abismado. Os comentários foram insultuosos. Num dos relatos, o comentador dizia que se via que longe ia o tempo em que não havia bolas de futebol na Coreia do Norte. Durante o início do jogo com Portugal, quando a selecção asiática pressionava e impunha respeito a Cristiano Ronaldo e companhia, os comentários eram quase todos desprestigiantes. E da mesma forma que comentadores estrangeiros ridicularizavam os norte-coreanos por treinarem num ginásio público enquanto as demais selecções têm os ginásios privados dos hotéis de luxo, o jornal português i teve uma tirada fantástica. "Os norte-coreanos, uma formação de homens esforçados e orientados por uma disciplina quase doentia (nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção), sentiram o peso da desvantagem e começaram a abrir brechas." O que para todas as outras selecções seria sinónimo de fairplay - não fazer faltas e marcar exactamente onde se as sofreu - é, no caso da Coreia, sinónimo de orientação "por uma disciplina quase doentia".

Curiosamente, os que usam todos os argumentos para atacar a Coreia do Norte não tecem a mínima crítica às Honduras. Um país que tem um governo fascista que usurpou o poder através de um golpe que levou à morte de centenas de pessoas e onde morrem assassinadas dezenas de jornalistas por tentar relatar o que lá se passa. Contudo, para os jornalistas portugueses a vida dos seus camaradas hondurenhos vale menos que uma crítica à forma disciplinada como os norte-coreanos respeitam os adversários e as regras do jogo. Porque isso é fairplay estalinista.

sábado, 19 de junho de 2010

Alfarrabistas, os depositários da literatura de Abril

Quando estive na Venezuela, as livrarias estavam cheias de livros sobre política. Entre os mais vendidos, encontrava-se o Guerra de Guerrilhas do Che Guevara. A Feira do Livro, em Caracas, tinha dezenas de espaços onde se amontoavam edições recentes das obras do passado e do presente. Como um retrato vivo da realidade que se vive, hoje, na Venezuela, comprova-se a célebre afirmação de que as "ideias da classe dominante são as ideias dominantes em cada época". Disse-o Marx e Engels.

E ainda que não seja a classe trabalhadora a que domina o poder económico na Venezuela, as livrarias reflectem o processo que se vive no país e a influência que tem sobre a produção e difusão de umas ideias em detrimento de outras. Digo-o porque quando, em Portugal, entro em livrarias e em alfarrabistas vejo a diferença entre o presente e o passado. Aqui, os livros que difundiam uma determinada visão da realidade que não corresponde, hoje, à das classes dominantes amontoam-se nas estantes bafientas dos alfarrabistas. Tudo o que promova os valores do capitalismo tem espaço nas grandes livrarias e nos hipermercados.

Espero que dentro de uma década não sejam os alfarrabistas venezuelanos os depositários de uma cultura perdida no tempo. E espero que os intelectuais venezuelanos não sucumbam como muitos intelectuais portugueses, que para se manterem à tona saltaram do comboio da esquerda para abraçar o "socialismo democrático". Que não venham depois renegar os "excessos do processo bolivariano" e que não venham condenar as organizações e processos revolucionários de outros países. Ou atacar intelectuais que por não se renderem seriam alvos inevitáveis do cerco mediático.

domingo, 6 de junho de 2010

Oportunismo de Fernando Nobre

Numa entrevista a vários órgãos de comunicação social, Fernando Nobre diz que se distingue dos outros candidatos por não fazer parte do sistema. O candidato à Presidência da República é de um oportunismo atroz. Típico de quem tenta passar entre as gotas da chuva para não se molhar, Fernando Nobre já havia sustentado a tese de que é o melhor candidato por não ser de nenhum partido. Entende que não é de esquerda nem de direita.

Mas Fernando Nobre é do sistema. Não só é do sistema como sempre pactuou com ele. Já participou em convenções do PSD, já foi membro da Comissão de Honra da candidatura de Mário Soares à Presidência da República, já foi mandatário da candidatura do BE ao Parlamento Europeu, apoiou a candidatura do PSD à Câmara Municipal de Cascais e faz parte de uma associação monárquica. Só se deixa enganar quem é parvo.