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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Os equívocos de Chávez

No seu livro "Lénine e a Revolução", Jean Salem dedica um capítulo à velha discussão entre os revolucionários e os reformistas. O professor francês explica que "os grandes problemas da vida dos povos nunca são resolvidos senão pela força". E apesar de os comunistas não renunciarem a qualquer forma de luta, "os revolucionários não devem renunciar à luta pelas reformas". Apresenta ainda que, segundo Lénine, "o exército permanente e a polícia são os principais instrumentos da força do poder do Estado" a que Salem acrescenta "a multiplicação das polícias ou outras milícias privadas", no contexto da globalização capitalista.

Pensemos na Colômbia, onde o capital, para além do Estado, utiliza as milícias paramilitares para combater os sindicalistas e guerrilheiros e para sustentar o tráfico de droga. Pensemos na Colômbia, onde as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP) tentaram, nos anos 80, a luta pacífica através da participação nas eleições e da qual foram arredadas pela carnificina que levou à morte de três mil membros da União Patriótica. Pensemos na Colômbia, onde os Estados Unidos investem milhões de dólares e equipam o exército colombiano com as armas mais avançadas.

Suponho que Hugo Chávez não tenha reflectido muito antes de ter afirmado que a luta armada, protagonizada pelas FARC-EP, já não faz sentido. Porque nenhum revolucionário pode acreditar que as formas de luta são próprias de um tempo específico, como se de uma moda se tratasse, e não reflexo da agudização da violência dos exploradores contra os explorados. Neste sentido, dizer que as FARC-EP representam uma desculpa para a intervenção dos Estados Unidos na América Latina não só é absurdo como rídiculo porque outros, como Salvador Allende, provaram que qualquer mudança política, pacífica ou violenta, que não satisfaça o imperialismo norte-americano será alvo da ingerência colonial de Washington. Para além disso, o presidente venezuelano acrescentou que a guerrilha deve libertar os homens e mulheres que tem em seu poder sem se referir por uma única vez aos guerrilheiros e guerrilheiras que apodrecem nas prisões colombianas.

Hugo Chávez sabe que uma boa parte da economia Venezuela está nas mãos do capital. O processo bolivariano tem resultado em conquistas fenomenais para a classe trabalhadora mas a burguesia não vai ceder o poder económico de forma pacífica. Como se diz em Portugal, "depois veremos".

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Cinema anti-comunista

Finalmente, estreou a última parte de Indiana Jones. Depois de Indiana Jones e a Grande Cruzada, lançado em 1989, Steven Spielberg volta a dar vida ao intrépido arqueólogo, interpretado por Harrison Ford. No episódio anterior, que focava os anos 30, Indy e o seu pai Henry Jones (Sean Connery) deram uma carga de trabalhos aos nazis.

Desta vez, parece que vamos ter soviéticos metidos no barulho. Ainda não vi a sequela mas, pelo que já se disse, o KGB vai assumir, pela milionésima vez, o papel de mau-da-fita. Parece que a URSS precisa da caveira, que Indiana Jones também procura, para tomar o poder no mundo. Quase 20 anos depois, Hollywood continua a preferir a pátria de Lénine como inimigo para as suas fitas. É que o fim da URSS, afinal, não acabou com os comunistas e o capitalismo continua a piorar a condição de vida das pessoas. Portanto, a mentira ajuda sempre a prevenir o futuro.

Mas este sentido crónico de reescrever a história e a realidade não é apanágio do cinema norte-americano. Cá, tivemos a polémica em relação ao Call Girl. E, talvez poucos se recordem, mas da pátria de Visconti, Rossellini e DeSica saiu um filme que fez muito sucesso nas salas de cinema e que foi coroado com três Oscar. A vida é bela, de Roberto Benigni, fez rir e chorar milhões de espectadores por todo o mundo. Mas o que me fez mesmo chorar foi a manipulação taberneira da 2ª Guerra Mundial.

Talvez se recordem que os dois protagonistas, o pai Guido e o filho Josué, foram enviados para um campo de extermínio nazi. No final, para alivio de todos, Josué é salvo pela chegada das tropas norte-americanas. Há até lugar para uma lágrima de felicidade quando o pequeno vê a chegada dos tão esperados tanques. Contudo, há um pormenor. Os campos de extermínio situavam-se no Leste europeu e foram todos libertados pelo Exército Vermelho.

Nota: Quase telepaticamente, a RTP divulgou uma notícia sobre a posição dos comunistas russos em relação ao novo Indiana Jones.

sábado, 10 de maio de 2008

Petróleo? Não, obrigado.

Soldado americano no Iraque (ou na Amadora se tivessemos petróleo)

Bem sei que andamos mal de combustíveis. Mas não deixei de ficar aliviado quando António Oliveira, presidente do Estrela da Amadora, para justificar o não pagamento dos salários dos jogadores, afirmou que o clube não tem qualquer poço de petróleo. Com estas coisas não se brinca e é caso para se ter medo - eu, pelo menos, não o desejo a ninguém. É que, normalmente, por trás de uma jazida de petróleo há um bombardeamento norte-americano à espreita.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

"Democracia" burguesa e o "autoritarismo" popular

O Presidente da República, Cavaco Silva, acaba de promulgar o Tratado de Lisboa. É assim que funciona a democracia burguesa, só se deve perguntar ao povo se ele aceitar responder o que nós queremos. Aliás, foi isso que aconteceu aquando da vitória do Hamas nas eleições legislativas palestinianas. Em vez de a União Europeia respeitar os resultados preferiu dizer que foi uma má resposta do povo e cortou-lhe as ajudas financeiras.

Mas é interessante ver países como a Venezuela, cujo governo é considerado autoritário pelo União Europeia e Estados Unidos, referendarem a sua Constituição e aceitarem democraticamente o resultado negativo. Também é interessante o exemplo dado hoje pelo senado boliviano de agendar um referendo revogatório para ouvir a vontade do povo. Naturalmente, foi uma proposta dos representantes do capital mas foi aprovada pelos representantes do governo. Tanto Hugo Chávez como Evo Morales não pertencem à estirpe da canalha que nos governa. Não têm medo do povo.

Valha-nos a Irlanda.