terça-feira, 22 de junho de 2010

O fairplay estalinista

É exasperante ver os jogos em que participa a República Democrática Popular da Coreia. Os comentadores desportivos, tão inábeis na arte da objectividade, até se aventuram a falar de política. E usam-na para forrar as habituais metáforas de péssima qualidade. Com o mínimo de decência e atenção, quem ouviu o relato na RTP e nas estações de rádio só poderia ficar abismado. Os comentários foram insultuosos. Num dos relatos, o comentador dizia que se via que longe ia o tempo em que não havia bolas de futebol na Coreia do Norte. Durante o início do jogo com Portugal, quando a selecção asiática pressionava e impunha respeito a Cristiano Ronaldo e companhia, os comentários eram quase todos desprestigiantes. E da mesma forma que comentadores estrangeiros ridicularizavam os norte-coreanos por treinarem num ginásio público enquanto as demais selecções têm os ginásios privados dos hotéis de luxo, o jornal português i teve uma tirada fantástica. "Os norte-coreanos, uma formação de homens esforçados e orientados por uma disciplina quase doentia (nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção), sentiram o peso da desvantagem e começaram a abrir brechas." O que para todas as outras selecções seria sinónimo de fairplay - não fazer faltas e marcar exactamente onde se as sofreu - é, no caso da Coreia, sinónimo de orientação "por uma disciplina quase doentia".

Curiosamente, os que usam todos os argumentos para atacar a Coreia do Norte não tecem a mínima crítica às Honduras. Um país que tem um governo fascista que usurpou o poder através de um golpe que levou à morte de centenas de pessoas e onde morrem assassinadas dezenas de jornalistas por tentar relatar o que lá se passa. Contudo, para os jornalistas portugueses a vida dos seus camaradas hondurenhos vale menos que uma crítica à forma disciplinada como os norte-coreanos respeitam os adversários e as regras do jogo. Porque isso é fairplay estalinista.

5 comentários:

Por Justiça disse...

pois, pois
custa muito ouvir as verdades dos regimes que muito admiramos, não é?

Anónimo disse...

Não me parece que assim seja, este artigo não pressupõe qualquer admiração ou simpatia com o sistema norte-coreano. Só comenta (muito bem) a discrepância de critérios da imprensa (ou será empresa) ocidental. Nas honduras está um poder ilegítimo, ditatorial onde são assassinados diaramente camponeses, jornalistas, sindicalistas e opositores do regime de Micheleti, no entanto a imprensa não faz qualquer eco disso. Parece que há ditaduras boazinhas e ditaduras mazinhas. Para mim são todas mazinhas.

A CHISPA ! disse...

O que os comentadores ao serviço do capitalismo não diriam,se a selecção norte-coreana fosse recebida,com o tipo de discurso realizado pela ministra dos desportos de França,à chegada da selecção francesa?
"achispavermelha.blogspot.com"
A CHISPA!

Luis Nogueira disse...

Descobri agora o teu blogue e creio que fiquei cliente. Visita-me, se te der para isso em A Torre Dos Soluços (torrecdossoluços@blogspot.com) e serás bem-vindo.
O dito do sr. "por Justiça", é a continuação, em mais batinho, dos tais comentadores.

Luis Nogueira

pedras contra canhões disse...

a ofensiva ideológica percorre tudo.
o teu blog tá muita nice!!!