domingo, 18 de julho de 2010

Também somos Mandela!

Nelson Mandela faz hoje 92 anos. Em 1990, o líder histórico da luta contra o apartheid era libertado após 28 anos de prisão. Dez anos antes, numa carta aberta enviada à direcção do Congresso Nacional Africano (ANC), Mandela fazia um apelo: "Unam-se! Mobilizem-se! Lutem! Entre a bigorna que é a acção da união das massas e o martelo que é a luta armada, devemos esmagar o apartheid!" Cinco anos depois, em 1985, recusava negociar o fim da luta armada em troca da sua libertação.

Como Nelson Mandela, muitos outros sacrificaram uma boa parte das suas vidas nas prisões. E, infelizmente, as prisões nunca deixaram de receber os heróis que lutam contra a opressão. Por exemplo, em 1981, quando faltavam ainda nove anos para a libertação de Nelson Mandela, foi preso, nos Estados Unidos, Mumia Abu-Jamal. Vai cumprir este ano 29 anos de prisão. Mas há pior. No ano anterior à prisão do jornalista e activista negro, era detido Jose Mari Sagardui, mais conhecido como Gatza. Como independentista basco, já experimentou 13 prisões e encontra-se há 30 anos privado de liberdade.

Mas há muitos outros casos de prisões por motivos políticos. A somar a Mumia recordemos os cinco cubanos presos nos Estados Unidos em 1998. Para aí foram extraditados os dois membros das FARC Sonia e Simón Trinidad. Também é importante lembrar Leonard Peltier, um activista pelos direitos dos povos originários dos Estados Unidos, que está preso desde 1976. Há 34 anos, imagine-se! A data prevista para a sua libertação é em 2040, quando tiver 96 anos. Mas estes são uma pequena parte da maioria dos presos políticos nos Estados Unidos.

Mas na Europa também os há. Para além do caso mais grave que referimos em relação ao independentista basco Gatza, temos o famoso Ilich Ramirez. No início dos anos 90, exilou-se no Sudão. Mas em 1994, não se sabe a que preço, o governo sudanês permitiu uma operação de sequestro dos serviços secretos franceses que o levaram para Paris. Em 1997, foi condenado a prisão perpétua. Apesar de ser uma figura controversa e, certamente, em muitos aspectos, questionável, o governo venezuelano tem pedido a sua extradição. A título de curiosidade, deixamos a resposta que deu na primeira audiência quando o juiz lhe perguntou a profissão. "Sou um revolucionário profissional na velha tradição leninista", disse.

Apesar de o imperialismo ser protagonizado pelos Estados Unidos e pela Europa, também na América Latina há presos políticos. A Colômbia é, certamente, o país que mais se destaca. Mas há outros. No Peru, a norte-americana Lori Berenson foi libertada este ano após 15 anos de prisão por militar no Movimento Revolucionário Tupac Amaru. Muitos outros continuam nas prisões peruanas. No caso das Honduras, o golpe de Estado lançou uma vaga repressiva sobre os movimentos populares e as detenções e os assassinatos sucedem-se. No Chile, dá-se o caso menos conhecido dos presos mapuche. Os mapuche são um povo que vive em território chileno e argentino e que lutam pelo reconhecimento pelo seu direito à terra.

Em África, para dar um exemplo, centenas de sarauís enchem as prisões marroquinas e na Ásia temos vários países, entre os quais a Turquia que mantém os independentistas curdos, entre outros, encarcerados. É assim com Abdullah Ocalan, preso desde 1999.

Infelizmente, a realidade das prisões por motivos políticos não acabou. É o silenciamento dos media que faz com que pareça ter acabado. Hoje, falar-se-á muito de Nelson Mandela nos telejornais enquanto milhares apodrecem nos cárceres. É uma realidade que não acabou e não vai acabar enquanto persistirem os motivos que levam milhões de seres humanos a lutar: o reconhecimento do direito à autodeterminação, o fim da opressão e da exploração do homem pelo homem e a igualdade entre todos os seres humanos. É uma luta pela qual vale a pena dar o melhor das suas vidas e pela qual a prisão não tem qualquer signo de culpa ou de peso na consciência. É um orgulho lutar-se por tais motivos!

8 comentários:

Membro do Povo disse...

No caso de Mandela e do ANC o seu papel na luta contra o Apartide foi inquestionável, já a sua politica após a tomada de poder esteve repleta de privatizações, de perda de direitos dos trabalhadores "brancos" e de algumas conquistas simplistas dos trabalhadores "negros". A a politica de Mandela assegurou a livre circulação do individuo na África do Sul, mas favoreceu descaradamente o grande capital. Quanto aos trabalhadores, os direitos humanos e cívicos foram nivelados por baixo. Porque é que achas que os média dão tanta importância ao herói que é Mandela?

João disse...

Membro do Povo
Finalmente, um excelente comentário, o que prova que tem capacidade para compreender e aprofundar outras situações, que têm a ver com a nossa realidade concreta, como por exemplo, a FRACA oposição que é feita á ofensiva do capital, contra os direitos dos trabalhadores.

João

Membro do Povo disse...

João.
A oposição ao capital EXISTE e está bem mobilizada embora sempre silenciada pelos meios de comunicação, propriedade na sua maioria do capital.
A Luta cabe aos trabalhadores! As instituições revolucionárias apenas a coordenam. Quando a lavagem cerebral está bem estabelecida, os trabalhadores são menos participativos nas acções de Luta e a oposição anti-capitalista parece fraca mesmo quando está bem activa.

Devias ponderar um pouco mais antes nos problemas que os activistas revolucionários encontram, um abraço!

João disse...

Membro do povo

Se os nossos sindicalistas tivessem uma visão revolucionária de transformação da sociedade, como têm os sindicalistas gregos e o PCGrego, talvês eles consegui-sem superar as suas dificuldades.
Estive a ler uma recente entrevista, concedida pela Secretária Geral do P.C.G-KKE, ao jornal comunista italiano "Ernesto"( que o aconselho a ler) e veja a diferença de conclusões e objectivos a conseguir por estes,quando comparados com os objectivos e conclusões,feitas pelo Partido na sua última reunião de CC, pela CGTP, como também pela burguesia social-democrata retardada do BE.
Enquanto os primeiros procuram mobilizar os trabalhadores contra a ofensiva capitalista/imperialista,com os olhos colocados na conquista do socialismo, os segundos procuram "resistir" propondo politicas para tornar o capitalismo menos cruél.Ou seja na manutenção do capitalismo.
Com uma politica destas,é impossivel mobilizar os trabalhadores e resistir á ofensiva capitalista.
Quanto à mobilização de que fala e que remete para os orgãos de comunicação a sua ocultação, não deixa de ser verdade, mas sendo estes burgueses e favoráveis á politca do governo, que esperava?
Um abraço
João

Membro do Povo disse...

Da comunicação social não esperava nada a não ser a actual realidade, e não o digo como um lamento, antes a constatação de um facto ao qual já me habituei, mas que espero um dia ver corrigido!
Mas se me dizes que o PCP tenta "humanizar o capitalismo" não prestas a devida atenção à politica nacional, o PCP sempre defendeu o sector publico, quer no ensino, na saúde, no saneamento, na energia, nos mais diversos serviços indispensáveis ao cidadão comum.
Tem defendido sempre salários mais justos, combatido o desemprego e despedimento ilícito, defendido a supremacia económica do estado (nomeadamente a nacionalização da banca), tem combatido a centralização do lucro - modus operandi do capitalismo... Não é isto os interesses do Povo? a via do direito e do fim da exploração?

João disse...

Quanto a um dia ver corrigido os efeitos de ocultação levados a cabo pelos meios de comunicação burgueses e capitalistas, bem pode esperar sentado, que NUNCA vai ver essa realidade.
Quanto às empresas públicas ou seja do Estado e sendo o Estado capitalista, é por demais evidente que estas empresas servem e estão ao serviço da economia capitalista e como tal dos capitalistas e não ao serviço do bem estar público.
Defender e tentar melhorar o sistema de saúde,a escola pública, melhoria de salários,etc. não deixa de ser positivo, mas limitarmo-nos apenas à sua defesa e não colocarmos o capitalismo em causa (e é isso que não respondes, quando coloco as diferenças entre o PCGrego-KKE e oPCP e BE), é querer tornar o capitalismo menos cruél.
Um abraço
João

Membro do Povo disse...

"Tem defendido sempre salários mais justos, combatido o desemprego e despedimento ilícito, defendido a supremacia económica do estado (nomeadamente a nacionalização da banca), tem combatido a centralização do lucro - modus operandi do capitalismo... Não é isto os interesses do Povo? a via do direito e do fim da exploração?"

Já tinha dito isto!
Um abraço!

João disse...

Membro do Povo
Já lhe disse no comentário anterior que todas as reivindicações que se façam a favor dos intereses dos trabalhadores, são positivas e bem vindas,Não, podemos é limitarmo-nos a elas.Estas devem de ser utilizadas como o eixo central de uma politica táctica revolucionária, com vista à luta pela conquista da Ditadura do Proletariado e do Socialismo.
Se esta perspectiva politica estiver ausente, qualquer acção por melhor que seja a intenção ela será sempre contemporizadora e nunca sairá do quadro do capitalismo, ou seja, é uma intervenção politica reformista que não visa o derrube do sistema capitalista,não ELEVA a consciência dos trabalhadores,como tende a criar ilusões que é possivel melhorá-lo e torná-lo menos cruél. Compreende?

Qualquer supremacia da economia por parte do Estado, mas o Estado mantendo-se capitalista, esta supremacia revertará sempre a favor da classe burguesa capitalista.
Veja só o que aconteceu na recente crise,o governo atendeu ás exigências da burguesia e socorreu-a, enquanto os míseros apoios sociais que dois meses antes tinham sido aprovados e alguns nem em prática estavam, foram retirados.
Qualquer nacionalização a exigir, ela só poderá ser feita, com o emergir de poderosas acções de massas e enquadrada numa possível crise social e politica a existir e que se transforme numa crise revolucionária,e, esta conquista a haver, só poderá se manter se os trabalhadores TOMAREM o PODER.

Após o 25 de Abril de 1974,os trabalhadores impulsionados pelas suas lutas reivindicativas,fizeram estalar uma crise social e politica, que passado muito pouco tempo se transformou numa crise revolucionária, que ATERRORIZOU a burguesia, na medida em que esta crise se aprofundava,o capital financeiro e industrial tratava de fugir com os seus capitais,então os trabalhadores pela sua luta conseguiram impôr a NACIONALIZAÇÃO da BANCA, e OCUPAR as TERRAS no Alentejo, conseguiram impôr uma CONSTITUIÇÃO onde os seus direitos sociais, passaram a estar constítuidos em forma de Lei,tais como o direito ao TRABALHO, à GREVE,à SAÚDE,à EDUCAÇÃO, à HABITAÇÃO como à SEGURANÇA SOCIAL etc.etc.Mas como não conseguiram ir mais longe e não tomaram o PODER,que estava mesmo ali à mão,passado uns tempos, particularmente depois do 25 de Novembro,a burguesia tratou de os recuperar na medida em que aos poucos a correlação de forças ía se alterando a seu favor com APOIO do PS e da UGT,mas também pela COBARDIA politica das direcções do PCP e da CGTP, que tiveram o cuidado de irem desmobilizando o movimento e os trabalhadores (socorrendo-se das mais INFAMES calúnias, sobre todos aqueles que procuravam RESISTIR).
Assim a BANCA,as TERRAS foram de novo entregues aos seus antigos propriétarios e como tal privatizadas, como os outros direitos de uma forma continuada até hoje, estão a ser atacados e destruídos.

Veja o que aconteceu ao BPN,não foi a própria burguesia e o governo que tomaram a iniciativa de "nacionalizar" o banco,para quê, numa primeira fase para garantir os capitais e os interesses dos accionistas,depois recuperá-lo económicamente e tornar a privatizá-lo, por um preço muito mais baixo, do que os montantes que o Estado lá investiu.A quem serviu esta nacionalização?
Justo neste caso era deixar cair o banco, porque se tratava de uma instituição falida e qualquer intervenção só podia acarretar enormes prejuízos,que vieram a contríbuir altamente para o aumento do Déficit e que agora, estamos a pagar através das medidas do PEC.

Por fim gostaria que me explica-se o que é que entende por "despedimentos ílicitos" ou defende que se possa despedir LICITAMENTE, é que se assim for está a condenar o trabalhador à EXCLUSÃO SOCIAL.

NOTA: ontem visitei o seu blog,no ínicio da página estão dois comentários e um tal Ricardo, não se esqueça de lhe responder.

Um abraço
João