quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sérgio Moreira: a vitória de um resistente

Sérgio Moreira (primeiro à direita), em Caracas, à frente da sua livraria, ao lado de antigos resistentes antifascistas em Dezembro de 2008

O Sérgio travou ontem o seu último combate. E caiu. Mas apesar de ter caído, venceu. Porque a vitória não é só dos que derrotam a morte. Na maioria das vezes, a vitória é de quem derrota a indiferença. Dizia Antonio Gramsci que "a indiferença é abulia, é parasitismo, é cobardia, não é vida. (...) O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque as massas de homens abdicam da sua vontade, deixam de fazer, deixam enrolar os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixam promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixam subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar". O Sérgio venceu.

Quando partiu de Espinho, na década de 50, já levava a consciência política de quem conheceu de perto a realidade da classe trabalhadora. Como jornalista, teve a oportunidade de contactar com os pescadores e com as varinas da zona. E nunca esqueceu os outros heróis de um tempo em que a morte tampouco derrotava. António Ferreira Soares - conhecido como doutor Prata - foi um deles. O assassinato do "médico dos pobres" por parte da polícia fascista marcou várias gerações de antifascistas espinhenses.

Longe da pátria e do fascismo português, o Sérgio esteve sempre na linha-da-frente. Participou no movimento cívico-militar que derrubou o ditador Marcos Pérez Jiménez. Ajudou a fundar a Junta Patriótica Portuguesa. Coordenou o estágio militar dos membros do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação que realizaram o primeiro sequestro político de um navio contra o fascismo de Salazar e de Franco. E chegou a ser detido numa manifestação contra uma outra de emigrantes portugueses solidários com o regime fascista.

Desde cedo, esteve ao lado da revolução cubana. Que provocou uma tempestade em todo o mundo e, principalmente, na América Latina. No ano em que Fidel Castro entrou triunfante em Havana, juntou-se a Rúben Moreira e decidiram, com humor, atacar a recepção ao então ministro português dos Negócios Estrangeiros Paulo Cunha com bombinhas de mau cheiro.

Três anos depois, a 26 de Julho de 1961, no ano em que se declara o carácter socialista daquela revolução, Sérgio escreve: "Dia 26 pela tarde.../chove./fulgura o sol de cuba/e ilumina o mundo". Esse poema, intitulado como "sol de cuba", figura no seu livro "Vem como a gente" dedicado a Livia Gouverner. A jovem comunista venezuelana havia sido assassinada por fascistas cubanos numa concentração de estudantes universitários em solidariedade com a revolução cubana.

É assim Sérgio. Sempre solidário com a luta dos povos. Sempre em actividade contra o fascismo português. Mantém contactos com o Partido Comunista da Venezuela e com guerrilheiros. À chegada a Caracas, Amália Rodrigues e Simone de Oliveira revelam-lhe a solidariedade com os que lutam contra Salazar. Poucos meses antes de cair assassinado, Humberto Delgado convida-o para ser seu secretário. Coordena um programa de rádio, escreve em revistas, dá conferências, publica livros de poesia. Não pára.

Nos últimos anos, dedicou a sua vida à Livraria Divulgación que abrira em 1980. Ali, entre o mar de livros, Sérgio sabia escolher o livro adequado para cada pedido. Citava passagens de memória e estimulava o prazer da leitura. Não raramente, entravam universitários, professores e políticos à procura de uma determinada obra. Também ali se recusou a fechar a loja quando a oposição ao processo bolivariano decretou o 'paro petrolero' e perseguiu aqueles que não colaboravam. De resto, as paredes de vidro da livraria estavam forradas com cartazes políticos que denunciavam o carácter resistente do proprietário.

Na memória de todos os que o conheceram ficará a imagem de um ser humano extraordinário. Um ser humano que em tempo algum se deixou levar pela indiferença. Nos últimos anos, passou grandes dificuldades financeiras, sem nunca ter recebido qualquer reconhecimento ou apoio do Estado português. Ainda assim, esteve sempre lá, do lado certo da barricada. E todos nós ganhámos ao conhece-lo. Ao conhecer a limpidez de um homem cujos princípios éticos eram a antítese do mundo em que vivemos. Ele, como muitos outros resistentes antifascistas, é o mundo em que queremos viver.

Quem pode, afinal, dizer que o Sérgio perdeu?

6 comentários:

lp16 disse...

Honra ao Combatente Sérgio Moreira!

Luís Rocha disse...

Em honra ao camarada Sérgio Moreira, prosseguimos o combate solidário com a Revolução Bolivariana!

Esta semana vamos dedicar ao feitos da Revolução! Fiquem atentos. Aqui vai um aperitivo.
http://tirem-as-maos-da-venezuela.blogs.sapo.pt/

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009
Inflação e Salário Mínimo na Venezuela

A Inflação na Venezuela

De 1999 a 2008, durante a governação de Chávez, a soma da inflação anual acumulada é de 211%. A média por ano é de 21,1%. A inflação média durante os últimos 8 anos antes de Chávez foi de 50,8%. A inflação é um problema sério na Venezuela, quem o cria são os empresários capitalistas não é o Estado - que segue os controles de preços da Lei à risca. A solução é, na minha opinião e na de cada vez mais trabalhadores e sindicalistas venezuelanos, nacionalizar as empresas do sector alimentar e de outros produtos para o dia o dia e colocá-las sob Controle Operário (gestão democrática dos trabalhadores).



Fontes: Wikipédia, Banco Central da Venezuela, Instituto Nacional de Estatísticas (Venezuelano)

O Salário Mínimo na Venezuela

O último aumento do Salário Mínimo (na Venezuela) em 2008 trouxe o valor para 372 dólares ( 799 Bolívares Fortes na moeda venezuelana). Ao salário mínimo adiciona-se, no sector público e em parte do sector privado (porque alguns capitalistas não cumprem a lei), o "cesta ticket" (subsídio de alimentação) que em 2008 era de 186 dólares. Então o salário mínimo mais "cesta ticket" na Venezulea dá 558 dólares (440 euros). Além disso devemos ter em conta que os serviços publicos são gratuitos e mais vastos que aqui em Portugal. Na Venezuela todo o sistema de saúde e o sistema de ensino (do primário ao superior) públicos são gratuitos, não existem nem propinas nem "taxas moderadoras".

Antes de Chávez, nos últimos 9 anos anteriores de 1990 a 1998 (sob as presidências Carlos Andrés Perez, Ramón Velásquez, Rafael Caldera - dois do PS e outro do PSD lá do sítio), o salário mínimo médio desses 9 anos foi de 101 dólares. Ou seja, pelas minhas contas o salário minímo venezuelano atingiu um patamar que é quase o quatro vezes superior aos da época neoliberal dos 90.

Fontes: Observatório do Algarve, Tirem as Mãos da Venezuela (Brasil), Aporrea, BBC Brasil, Wikipédia

Luís Rocha disse...

Camarada Bruno estás disponível para organizar um debate sobre a Venezuela em Lisboa com o Colectivo "Tirem as Mãos da Venezuela"?

As tuas experiências seriam valiosas.

Bruno Carvalho disse...

Deixa-me o teu e-mail.

Luís Rocha disse...

O meu mail é peakoilemportugoil@yahoo.com.br

Desde já obrigado, por considerares o convite.

Boots disse...

Ao camarada a melhor homenagem que podemos fazer é cada um no seu local prosseguir a luta Antifascista!!