quarta-feira, 29 de julho de 2009

ETA: 50 anos de luta

"A luta armada é desagradável. Não agrada a ninguém e é dura. Como consequência, vai-se para a prisão, para o exílio, é-se torturado. Como consequência, pode-se morrer, é-se obrigado a matar e a pessoa endurece-se. Isso dói. Mas a luta armada é imprescindível para avançar. O governo espanhol sustem-se através do apoio do Exército e das Forças Repressivas. Para lutar contra esta força é imprescindível a força armada do povo. É indispensável que o povo organize a luta armada, na clandestinidade, na ETA."

Foi assim que 'Argala' descreveu o drama de gerações e gerações de bascos. E, provavelmente, não esperava que, ainda em 2009, as prisões espanholas e francesas estivessem a abarrotar de presos políticos bascos. Uma cifra impressionante: mais de 800 homens e mulheres encarcerados em ambos os Estados. Em todo o mundo, centenas de bascos vivem no exílio, estão deportados ou, simplesmente, na clandestinidade. Há alguns meses, desapareceu, em estranhas circunstâncias, um militante da ETA no que parece ser um prenúncio de tempos que não desapareceram. Desde então, as ruas e avenidas do País Basco enchem-se de manifestações denunciando. Na década de 70 e de 80, grupos armados, treinados e financiados pelo Estado espanhol torturaram e assassinaram políticos da esquerda independentista. Membros das Forças Armadas e de Segurança, assim como políticos, foram julgados e condenados. Cinco anos depois estavam em liberdade e, em alguns casos, condecorados com direito a subida na carreira. Muito diferente das penas a que estão sujeitos os independentistas bascos. Por exemplo, 'Gatza' está há 29 anos na prisão, mais do que Nelson Mandela. Essas acções de terrorismo de Estado conduzidas pelo governo de Felipe González provocaram um grande escândalo e arredaram a violência para o âmbito policial e militar. E apesar de os governantes e os jornais espanhóis insistirem que é uma estratégia da ETA para descredibilizar o Estado, a verdade é que a própria ONU reconheceu várias vezes o recurso à tortura contra cidadãos bascos. Desde a simulação do afogamento em banheiras, choques eléctricos nas zonas genitais, corte da respiração através de sacos de plástico, penetração de pistola na vagina com ameaça de disparo, vapores alucinogénicos, gravações de gente a ser torturada ou o habitual espancamento, tudo é possível para tentar arrancar uma confissão mesmo que falsa. Isto durante os dias que dura a incomunicação, um período aprovado pelo parlamento nacional e no qual os detidos não têm qualquer acesso ao mundo exterior. Nem ao contacto com a família ou com o advogado.

No País Basco, sente-se a tensão. Quase todas as organizações são ilegais. Nas últimas eleições municipais, a esquerda independentista ganhou em muitas localidades mas como os votos foram considerados nulos a presidência da Câmara Municipal passou, como por exemplo em Lizartza, para as mãos do Partido Popular que obteve a minoria absoluta de 12 votos. As pessoas revoltam-se. Têm familiares presos, as casas da juventude, antigos espaços abandonados ocupados, desalojadas pela força, manifestações proibidas e reprimidas a tiro. A sociedade basca vive num regime fascista em que uma boa parte da cidadania não pode expressar democraticamente a sua vontade. Há poucos dias, duas raparigas foram detidas porque levavam autocolantes independentistas. Um exemplo caricato desta democracia de fachada que há poucos meses decidiu arrancar as placas toponímicas que existiam há décadas nas ruas e avenidas do País Basco. O delito? Terem nomes de homens e mulheres que haviam sido combatentes da ETA. Das placas passaram para os cartazes. Em cada localidade, os familiares e amigos dos presos expõem publicamente as suas fotografias como forma de denúncia. Nas ruas, nos bares, nas fachadas das casas, qualquer lugar é bom para protestar. Mas agora, o Estado espanhol decidiu arrancar todas esses cartazes, faixas e pichagens e prender todos aqueles que participem nessa forma de protesto.

Agora tudo é pior. O PSOE está no governo do País Basco. Numa manobra inteligente, a ilegalização da esquerda independentista desequilibrou a balança de votantes que pendeu para o lado espanhol. Os partidos espanholistas como o PSOE, o PP e a UPD receberam mais votos que o PNV, a EA, a Aralar e a IU. Contudo, a maioria da população votou a favor da opção soberanista. Ou seja, aproximam-se anos muito duros para a esquerda independentista. Depois da proibição de jornais, rádios, organizações juvenis, associações humanitárias e de partidos políticos a situação ainda pode piorar. Os últimos redutos legais encontram-se no sindicato LAB, na organização de solidariedade internacionalista Askapena e em associações culturais. Tudo o resto move-se na clandestinidade. Há dias, incendiaram parte da casa dos pais de dois jovens independentistas bascos. Semanas depois, um grupo de homens combinou um trabalho com um independentista basco, operário da construção civil, e ao chegarem ao encontro raptaram-no e torturaram-no.

Há quem culpe a ETA pela actual situação. Mas a organização já afirmou estar disposta a negociar. Em troca de um referendo pela autodeterminação baixam as armas, incondicionalmente. Ou seja, é a única condição que apresentam para abandonar a luta armada. O receio de que ganhe a opção independentista e o efeito-dominó sobre a Catalunha e a Galiza assustam o Estado espanhol. Para além disso, a ETA assume-se como marxista-leninista e o socialismo mantém-se no seu discurso. Nas últimas negociações, ambos acordaram baixar as armas. A ETA não atacava e o Estado espanhol suspendia a repressão. Durante mais de um ano, durante a trégua, dezenas e dezenas de militantes independentistas foram presos e torturados. O Estado espanhol nunca cumpriu o acordado. A ETA cumpriu-o até que se fartou e fez explodir o estacionamento do Aeroporto de Barajas. Desde que surgiu, há 50 anos, a ETA tem estabelecido vários processos de negociação. Todos abortados pela intransigência dos representantes espanhóis que chegaram ao cúmulo de mandar prender os negociadores bascos.

Portugal teve e tem grandes amigos bascos. Vários dirigentes históricos da esquerda independentista viram na revolução de Abril uma mensagem de esperança para a luta que se vivia contra o franquismo. Por isso, muitos deles marcaram ao longo dos anos presença nas comemorações do 25 de Abril. Um deles, Joseba Alvarez, responsável pelas relações internacionais do Batasuna, encontra-se preso há mais de dois anos. Outro, que sempre teve um grande carinho pelo povo português morreu há poucos meses. Bernardo Arregi 'Tito' foi um dos que perdeu a juventude nas prisões espanholas. Depois de ter rebentado com um tanque militar espanhol, esteve cerca de 15 anos preso. Se lhe perguntassem se perderia outra vez a juventude por lutar por um País Basco livre e socialista, ele responderia que sim.

Podemos ser a favor ou contra a ETA. Isso não importa. O que importa é compreender que é um fenómeno com raízes políticas, económicas e culturais e que enquanto se derem as razões que a sustentam ela terá condições para existir. Por muito que o Estado espanhol diga, semanalmente, que está derrotada, há-de haver sempre jovens dispostos a sacrificar-se já não só pela independência e o socialismo mas também pela própria democracia. Amanhã, a ETA comemora 50 anos. Ontem e hoje, provaram que estão operacionais. Está na hora de acabar com a violência. A solução para o conflito é uma: que os bascos possam decidir o seu próprio futuro.

12 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom.

GORA ETA!!

Eugenio Monteiro disse...

PARABENS PELO TEXTO MUITO BOM.

Anónimo disse...

Bom texto, útil e cheio de informação. Quem quiser perceber o que se passa na nossa vizinha Espanha deve ler este artigo. O efeito dominó não tarda a chegar, caso o Estado espanhol continue a optar por métodos repressivos ocultos.

Luís Rocha disse...

Tenho diversas reservas à ETA pelos seus métodos, mas não pelos seus objectivos.

A luta pela independência e socialismo em Euskal Herria é uma causa nobre porque se inscreve no legítimo direito à autodeterminação dos povos.

Mas a situação de destruição das liberdades democráticas e de repressão brutal do País Basco merece um total repúdio de toda a esquerda. A tortura salta à vista como uma prova do carácter fascista da repressão do Estado espanhol contra o Povo Basco. A tortura é absolutamente injustificável e deve ser erradicada junto com o capitalismo.

As minhas dúvidas quanto a acção da ETA prendem-se com vários aspectos em que me parece que essa organização possa estar a adoptar posturas ultra-esquerdistas ineficazes. Por exemplo quando hostiliza organizações da esquerda independentista que optam preferencialmente pela luta pacífica. O próprio uso de métodos terroristas (ataques à bomba) deixa-me algumas dúvidas, quanto à sua eficácia (por exemplo a ideia de tomar o poder à bomba parece-me surreal).

Eu interrogo-me o que pensaram os etarras e os militantes bascos da opção tomada pelo Sinn Fein com um assinalável êxito eleitoral a partir do qual podem transformar gradualmente a Irlanda do Norte na Irlanda Unida e socialista desejada.

Por outro lado assiste-se à hipocrisia e desprezo pela justa luta do Povo Basco por parte de alguns partidos ditos de esquerda, como o PCE e a IU. A autodeterminação não devia ser um conceito questionável por aqueles que se dizem comunistas.

Sou da opinião que é na combinação de todas as formas de luta que está o caminho para a vitória do socialismo e da autodeterminação dos povos e de que dependendo do contexto se deve dar mais ou menos ênfase a esta ou aquela forma de luta.

Creio que todo o movimento da esquerda independentista basca (incluindo a ETA) deve definir como prioridade o restabelecimento pleno da democracia no País Basco e o cumprimento dos direitos humanos dos presos políticos. Essas metas podem ser de uma ajuda preciosa para a causa de fundo: a criação de um Euskal Herria independente e socialista.

De qualquer maneira subscrevo o que disseste ao longo do texto, especialmente na sua parte final, a solução só pode ser política, com os bascos a decidir o seu futuro. E a solidariedade com esta causa é justa e necessária (incluindo com todas estas vítimas da repressão do Estado espanhol).

Um Abraço,
Luís Rocha

Anónimo disse...

Inteiramente de acordo com a luta armada...não só no caso basco...cá tambem e em todo o lado onde imperem democraturas...onde existirem homens mulheres e crianças a passar fome e gestores a ganhar dezenas de milhares de euros...onde pessoas morrem por não term a possibilidade financeira a aceder á saude e onde burgueses se pagam milhares de euros em plásticas...é com a luta armada que se pode responder...pois a luta contra o povo essa é mortifera desde que morram ou sofram pessoas em resultado das politicas vigentes...não me venham com soluções politicas da treta...á crianças a morrer em todas as democracias burguesas...eu apenas optaria(na medida do possivel)por outro tipo de alvos no que diz rspeito á ETA...em todo o caso HONRA A ELES...
filipe
aproveito para deixar aqui um abraço ao josé ao francisco e ao luis e claro a ti caro bala...

Anónimo disse...

Apesar de considerar o texto denunciador da repressão fascista que é exercida,sobre os vários Povos de Espanha,as prisões dos militantes revolucionários e as formas brutais de violência com que estes são torturados e não são só os Bascos,pois ha centenas de presos politicos comunistas ha anos,mesmo Espanhóis,como o caso dos dirigentes do PCE(R),"antorcha.org".
Acho o texto um tanto ou quanto ambiguo quanto as formas de luta a serem levadas a cabo,ou seja dá um certo apoio as formas violentas,para depois defender um certo social-pacifismo,quando diz que é necessário a DEMOCRACIA e o respeito pelos direitos democraticos e soberanos destes povos,quando a monarquia e a classe capitalista espanhola e mesmo a basca,já demonstraram,mesmo antes da ETA nascer, que a unica "democracia" possivel é a capitalista e que não estão despostos a qualquer cedência "separatista" pacifica como era o caso de um eventual "referendo".
Quanto a ETA em si,apesar de assumir-se M-L e pelo socialismo ela não deixa de ser uma organização pequeno burguesa radical de esquerda,que até aqui não foi capaz de compreender a relação dialectica entre a luta revolucionária armada, com a necessidade da luta de classe revolucionária proletária contra o capitalismo e contra a burguesia capitalista basca,e isto por considerar os sectores da pequena e média burguesia basca (capitalista)sectores importantes e defensores do "projecto nacionalista"como aliados nesta fase do proletariado o que é errado e anti-marxista.(consultem e estudem o que diz MARX/ENGELS no "Na critica ao programa de Gotta e logo veram,ou mesmo o "manifesto comunista"que ainda é mais completo).
Apesar de alguns apoios nos sectores mais radicalizados do proletariado,(mais pelo efeito pacifista dos partidos reformistas e mesmo por aqueles que hoje defendem a dita "III républica"como etapa tactica imediata da luta pelo socialismo,(também ela reformista)etapa esta hoje ultrapassada não só pelo estado de desenvolvimento imperialista do Estado espanhol bem como,pelas alianças existentes entre a classe aristocrática monárquica e a burguesia oligarquica financeira e capitalista).Esta incompreensão no entanto não quer dizer,que não se deva apoiar os "métodos"utilizados pela ETA ou que se diga que são os "menos próprios"(porque pode atingir inocentes,verborreia normalmente utilizada pela burguesia reformista social-pacifista,nunca denunciando as vitimas inocentes do terrorismo do Estado espanhol)ou que estes "métodos"poderão levar ao seu isolamento,o que até não é própriamente o caso da ETA.
Cada Povo,tem o direito de lutar pela sua Soberania Nacional e Cultural e pela sua emancipação Social e os "métodos" de luta devem ser tão Barbaros,ou mais,como o que o, ocupante espanhol sempre utilizou contra si.
No entanto apesar da valentia demonstrada durante estes 50 anos, só a luta dos proletariados Franceses e Ibéricos na luta pela revolução proletariada,pela ditadura do proletariado e pelo socialismo poderá reestituir a todos estes Povos a verdadeira Soberania Nacional.

Quanto ao comentário do "anónimo"Felipe apoio-o inteiramente,só é pena,que não se critique as organizações juvenis,neste caso a JCP(mas também as adultas),quando fazem exigências burgesas, num momento em que o desemprego atinge os jovens na ordem dos 25%,grande parte deles,sem qualquer apoio social e sendo filhos de familias proletarias sem meios,venha a JCP exigir súbsidios e outros apoios para as "bandas de garagem",(vejam só) quando se sabe que estes "meninos" são filhos de familias de bens,em nome da "cultura" e da oportunidade para "todos".
Assim vai a nossa esquerda dita comunista e irmã dos PCE eIU.










Pois é caro "anónimo" (Felipe)eu concordo com o seu comentário,e acho que a única saída para derrotar-mos o capitalismo é exactamente essa,mas vejamos o que fazem certas organizações,que deviam estar preocupadas com as questões

al-Mansur disse...

GORA EUSKADI !!!!!!!

J.S. Teixeira disse...

Isaltino Morais: 7 anos de prisão. Finalmente fez-se justiça! Vejam algumas comparações no blogue O Flamingo.

Anónimo disse...
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Pedro Bala disse...

O comentário anterior foi apagado por se tratar de um insulto. Quem quiser vomitar imbecilidades e libertar as frustrações do dia-a-dia que vá às sessões da Igreja Universal do Reino de Deus.

Luís Rocha disse...

Uma exelente notícia de última hora:
Victoria popular e internacionalista: el perseguido político Iñaki Etxeberria recobró su libertad
Por: Comité de solidaridad por la liberación de Iñaki /aporrea.org
Fecha de publicación: 05/08/09

05 de agosto de 2009.- Esta pequeña nota es para informarles que la justicia imperó en nuestras instituciones y que el perseguido político Iñaki Etxeberria, después de mas de 100 días de estar preso y de enfrentar un juicio de extradición, ha recobrado su libertad., le queremos dar las gracias a tod@s aquell@s compañer@s que nos acompañaron durante más de tres meses de actividades por la no extradición de Iñaki. y les reiteramos una vez más la necesidad de cerrar filas en contra de la política de exterminio que durante siglos a caracterizado a los estados imperialistas como el español y el francés, en contra de pueblos como el vasco. hoy más necesaria que nunca ya que la represión a este pueblo ha alcanzando características alarmantes.



NO PERMITAMOS MÁS ENTREGAS DE REVOLUCIONARIOS A LOS ESTADOS IMPERIALISTAS Y SUS LACAYOS

POR EL INTERNACIONALISMO PROLETARIO

POR LA SOLIDARIDAD INTERNACIONALISTA

POR EL DERECHO DE LOS PUEBLOS DE LUCHAR POR SU LIBERACIÓN

PORQUE LA LUCHA DE LOS PUEBLOS NO ES TERRORISMO

Anónimo disse...

estes 50 anos de luta so demonstram k a repressao nada pode contra a vontade de um povo ser livre a historia o comfirmara kt aos metodos utilizados so assim os opressores donos do mundo e da moral podem sentir a vontade dum povo k a seculos ker ser livre do colonialismo espanhol tb nos passamos por isso n eskecer k no passado tb os movimentos de libertaçao africanos eram vistos km terroristas se calhar tb portugal precise duma ETA p meter na ordem os corruptos deste pais majores isaltino e felgueiras